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23/10/2019

Destruição da Previdência e serviços públicos no Chile estão na base da revolta de um povo maltratado

O general Javier Iturriaga, encarregado pelo governo do presidente do Chile, Sebastián Piñera, de comandar as operações em meio aos protestos, anunciou nesta segunda-feira 21 um toque de recolher em toda a região metropolitana de Santiago a partir das 20h até as 6h desta terça-feira 22. A reportagem é da Rede Brasil Atual, com informações do Opera Mundi,Telesur e Deutche Welle

Na segunda completou-se o terceiro dia consecutivo que um toque de recolher foi decretado no país desde que começaram as manifestações originadas por protesto contra o aumento no preço do metrô, na última semana, e cresceram diante do descontentamento com a qualidade dos serviços públicos.

“O governo, em vez de expressar empatia, baseia sua resposta em uma ‘mão dura’ que nega o sofrimento e as exigências justas da população”, afirma o sociólogo mexicano Jorge Saavedra, da Universidade de Cambridge. Para ele, essa atitude se arrasta há muito tempo e tem sido, em parte, responsável pelo descontentamento dos cidadãos.

Durante a ditadura de Augusto Pinochet, o Chile inaugurou, à força, a era do neoliberalismo no continente. A reforma da Previdência, que Paulo Guedes ajudou a implantar lá e sonha em copiar aqui, destruiu as esperanças da maioria dos chilenos de uma velhice digna. O regime ditadorial orientado pela política norte-americana conduziu às privatizações da mineração, do sistema bancário, dos serviços públicos de saúde, educação e transporte. A economia incluiu uma minoria próspera, enquanto à maioria da população relegou-se a informalidade, a pobreza e o desalento.

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Saavedra constata na reação do governo chileno um desdém de um governo que não tem habilidade para lidar com “quem vive um momento ruim”, como observa em reportagem do DW.

Na mesma edição brasileira do canal de notícias alemão, o cientista político chileno Cristóbal Bellolio alerta que “não é prudente cuspir em direção ao céu, especialmente quando há fraturas sociais escondidas, que não foram processadas corretamente”. Ele se refere à forma desdenhosa como ministros de Sebastian Piñera se referem aos clamores populares e atribuem os protestos a grupos violentos que querem sabotar o governo.

“Nós, chilenos, estamos pagando por serviços mais caros do que nossos bolsos nos permitem pagar”, explica Bellolio. “Quando o Chile tem sua imagem arranhada, fica em evidência uma enorme injustiça social, cultural, econômica e política. A boa imagem (de país pacífico e economia próspera) foi sustentada sobre pilares fracos que se apoiavam, em grande medida, na paciência de um povo maltratado que se cansou”, completa Saavedra.

“Os manifestantes veem que seus pais e avós recebem aposentadorias de miséria, 80% delas abaixo do salário mínimo e 44% abaixo da linha de pobreza. Percebem que, dessa forma, não há capacidade de sobreviver dignamente”, afirmou o  professor da Faculdade de Economia e Negócios da Universidade do Chile e doutor em Economia pela Universidade de Berkeley, Andras Uthoff. Em entrevista ao jornalista Leonardo Sakamato, do UOL, Uthoff faz uma relação direta entre a demanda dos manifestantes por serviços públicos de qualidade e os problemas no sistema de aposentadorias.

Isso porque, para financiar o custo da transição para o sistema de capitalização – o mesmo que o ministro da Economia, Paulo Guedes, quer adotar no Brasil –, uma das medidas foi cortar gastos em saúde, educação, moradia. “Depois de 40 anos, percebemos que o sistema de capitalização individual empobreceu os idosos no Chile”, disse o professor. “A qualidade dos serviços públicos se deteriorou e nunca recuperou níveis de dignidade, como prometido.”

‘Guerra?’

A polícia vem reprimindo manifestações em vários pontos da capital. Na Praça Itália e Providencia, centenas de manifestantes se reuniram sob a palavra de ordem “Chile despertou”. As forças de segurança utilizaram bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha para reprimir os protestos.

Hoje também os espanhóis saíram às ruas de Barcelona em solidariedade ao povo chileno, e pediram o fim das políticas de Piñera. Uma repercussão que reforça: o descontentamento com o neoliberalismo não é um ‘privilégio’ chileno.

Em meio à onda de protestos no Chile, o presidente Sebastián Piñera afirmou na noite deste domingo 20 que o país está “em guerra” contra um “inimigo poderoso e implacável”. Ao menos 11 pessoas já morreram, de acordo com o governo.

“Estamos em guerra contra um inimigo poderoso, implacável, que não respeita nada, nem ninguém, e que está disposto a usar a violência e a delinquência sem nenhum limite, que está disposto a queimar nossos hospitais, o metrô, os supermercados, com o único propósito de produzir o maior dano possível”, disse, em declarações à imprensa. “Estamos bem cientes do fato de que [os protestos] têm graus de organização e logística típicos de uma organização criminal.”

O general Javier Iturriaga, que comanda as operações de toque de recolher e as atividades do Exército na crise, se distanciou das afirmações de Piñera e disse não estar “em guerra com ninguém”. “Sou um homem feliz e a verdade é que não estou em guerra com ninguém.”

A prefeita da Região Metropolitana de Santiago, Karla Rubilar, disse que as manifestações são um sinal de descontentamento com a classe política do país. “Hoje, temos que aceitar com humildade que esta crise vem de muito tempo e não a soubemos ler, não a vimos chegar”, afirmou nesta segunda 21.

Fonte: SEEB SP

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